QUEM TEM MEDO DO ANARQUISMO???

O que é anarquismo? Como teoria social o anarquismo se estabeleceu a partir do princípio, a anarquia é ordem. A célebre frase elaborada por Proudhon esclarece que a única ordem é o não governo. Por tal motivo o anarquismo é associado pejorativamente ao conceito de anomia, desordem e quiproquó. Como sistema social, o anarquismo tem na liberdade o seu tema central. A liberdade corresponde a uma das categorias ou fenômenos que tem origem na sociabilidade, mas que também são elementos do conhecimento e da cultura universal, como a liberdade da vontade, a igualdade, a solidariedade, a dignidade e o respeito. Portanto, se a primeira natureza do humano é biológica e a segunda é social. Para os anarquistas, a segunda natureza além de social é libertária, o que coloca os anarquistas num diálogo estreito em relação à alteridade, pois, não é possível a consciência de liberdade sem o sentido da vida social.

A depreciação sofrida pelos anarquistas sobre a sua visão de mundo está relacionada ao processo educacional que se estabeleceu ao longo do século XX e XXI. A educação é que prepara o humano para a vida social, mas, no ensino regular contemporâneo existe uma tendência a naturalizar as leis e reduzir a liberdade ao sentido do cumprimento da lei, seja ela qual for. O que direciona a sociedade para a obediência, para o trabalho e para o consumo; o engodo que aliena as pessoas à indignação e a subversão; contribui para a formação de um modelo de sociedade apática, individualista, ausente de relações solidárias e que adoece num ambiente de estresse, de trabalho e indiferença em relação ao que é político.

O problema do anarquismo é com a natureza despótica do Estado e do contrato social, que estão direcionados para o controle e a dominação. Tal fato poderá ser verificado no conceito de liberdade, que não tem o mesmo sentido para anarquistas e contratualistas. Como teóricos do contrato social, Locke e Rousseau defenderam que o homem abdica de sua liberdade para viver em sociedade; os anarquistas dizem que não. Proudhon e Bakunin defendem justamente o contrário, que o homem apenas poderá ser livre na presença de outros homens livres, ou seja, apenas com a vida social é possível ser livre; a liberdade funda a sociedade, pois o humano não teria a consciência da liberdade vivendo no isolamento. A liberdade de cada indivíduo apenas poderá ser alcançada perante a igualdade de todos e a realização da liberdade na igualdade parece ser de fato o que se entende por justiça. O anarquismo estabelece a razão humana como condição para julgamento da verdade, da consciência humana como fundamento da justiça e a liberdade, seja individual ou coletiva, como princípio criador da organização social.

O anarquismo tem como finalidade a emancipação política do indivíduo em relação à dominação e tutela do Estado, que deverá ser suprimida em função da organização coletiva dos meios de produção (campo e fábricas), promovendo o fim do trabalho como categoria central para acumulação de riqueza. É importante esclarecer que o pensamento libertário não é uma imposição; ele não busca sansões para o seus atos senão pautado na própria razão e nas deliberações de acordo com a vontade livre de cada um.

Os fundamentos históricos do anarquismo ou socialismo libertário tem origem na organização da 1° Internacional, na peleja entre Karl Marx e Mikhail Bakunin sobre o fim do Estado e a ditadura do proletariado. A crise entre as duas opiniões teve como desfecho a expulsão dos anarquistas da 1° Internacional. Portanto, a possibilidade de transformação social passou a se assentar sobre duas perspectivas:

MODELO MARXISTA: Para os marxistas uma vanguarda tem a missão de direcionar as massas para o comunismo, e a partir da tomada do poder, o clímax da luta de classes, se daria a formação de um Estado transitório ao comunismo. Numa outra perspectiva o Estado poderá continuar revolucionário ou assentar-se sobre um reformismo estéril.

MODELO BAKUNINISTA: Este modelo foi definido tendo como base as ideias de Bakunin, embora existam diversas correntes dentro do que se conhece por anarquismo, ele se fundamenta a partir da sentença que toda autoridade deverá ser rejeitada. Neste sentido, a organização das massas não assume um caráter autoritário, e as decisões são tomadas em assembleias livres, soberanas e horizontais, sendo renunciada toda a ideia de centralidade; com a destruição do poder haverá o fim do Estado, e a propriedade privada cederá lugar para a formação de comunas livres e coletivizadas.

A diferença entre os dois modelos é apenas metodológico, mas ao longo da história travaram-se grandes batalhas pela liberdade e pelo fim do Estado, como por exemplo, na Revolução Russa e na Ucrânia, na Guerra Civil Espanhola, no Brasil…

É importante esclarecer que o anarquismo não é um sistema completo e tampouco uma teoria única. Ao contrário, ele se caracteriza por um movimento constante de ideias que formam a concretude de diversas correntes. É importante ressaltar que o anarquismo não sustenta verdade absoluta sobre coisa alguma ou sobre objetivo último definido. Realiza-se na perfectibilidade das organizações sociais e sobre os modos de expressão, das quais não se pode atribuir nenhuma finalidade definida ou objetivo determinado, porque, o movimento contínuo de novidades imprevisíveis é um traço característico da complexidade da existência humana.

O Estado é quem deseja reduzir a rica diversidade da vida social à obediência, e assim ajustar o cotidiano das pessoas para a uma vida singularizada, mergulhada no universo da competição e do trabalho, fato que aliena o indivíduo em relação ao sentido da vida social. Anarquismo não é ideologia, é o poder quem necessita de ideologia. A natureza da ideologia é a de ser um instrumento a serviço do poder e condição indispensável da dominação, seja do Estado ou de outras doutrinas que aspiram à tomada do poder e manutenção da antiga ordem. Logo, a ideologia poderá ser entendida como a pretensão a uma explicação total, que procura suprimir toda a riqueza da diversidade de opiniões em benefício de sua forma única e temporal.

Anarquia não necessita de ideologia, apenas de ideias. É a autoridade quem precisa de instrumentos para justificar as barreiras que são colocadas diante da liberdade de cada pessoa. Rejeitar a ideologia não implica numa negação de discursos ou de análises mais amplas sobre a realidade; a ideologia não é o único discurso racional sobre visão de mundo. Existem outros modelos para organização social que não o Estado, o que coloca o anarquismo como o movimento de ideias que, calcada nas ações, procura reconstruir a vida de acordo com a vontade individual, coletiva e autônoma.

Assim, o anarquismo tem como perspectivas para a sociedade, o princípio da revolução no mundo. Para tal intento é necessário à desconstrução radical de toda ordem religiosa, política, econômica e social atuais para a reconstrução de toda a sociedade sobre as bases da liberdade, da razão, da justiça e do trabalho. Tal propósito não poderá ter efeito em um curto prazo de tempo apenas cessará quando o movimento do mundo inteiro compreender a sua razão de ser.

            Reflexões para uma vida libertária…

            A sociedade pode existir sem governo.

            A sociedade seria melhor sem governo…

            Então, trabalharemos para construir uma sociedade sem governo,

            porque tem mais valor enfraquecer a autoridade hoje do que amanhã.

            A essência da liberdade é a desobediência.

            Flores para os anarquistas mortos…

M.A.L., estudante de Filosofia

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