O trote na faculdade de direito da UFMG, a Operação Saturação no Bairro dos Pimentas e o futuro do país

Na última semana foi veiculado nas redes sociais e na grande mídia o episódio do trote na Universidade Federal de Minas Gerais com os calouros do curso de Direito. Em umimagesa das imagens veiculadas tinha uma mulher pintada de preto, com as mãos amarradas e uma placa escrita: “CALOURA CHICA DA SILVA” e numa outra imagem havia um rapaz preso a uma pilastra por uma fita zebra, também pintado de preto e um grupo de rapazes ao lado dele, um deles com um bigode imitando ao do Hitler e insinuando uma saudação nazista. Uma vergonha para o país, para a universidade e para todos que lutam dia após dia para a construção de uma sociedade melhor.

O campus de Ciências Humanas da Unifesp fica localizado no Bairro dos Pimentas, local este que sofre a Operação Saturação da Polícia Militar, um modelo baseado nos moldes cariocas das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP). Foi disponibilizado um efetivo de 100 homens para estabelecer a “paz e a ordem” no bairro “mais violento” de Guarulhos. Cem homens. FORÇA TÁTICA, ROCAM, ROTA, CHOQUE, CAVALARIA, CANIL, COE, TRÂNSITO e por vezes HELICÓPTERO. Muita segurança mesmo.

Apresentaram como resultado dessa ação o número de mais de 3 mil abordagens em uma semana. Pergunto: E essas abordagens foram orientadas através de qual estereótipo? Quem é sempre suspeito? Qual a etnia da maior parte dos moradores desta e de outras periferias pelo Brasil afora? Considerando a Polícia Militar como braço do Estado, poderíamos pensar na possibilidade do Governo do Estado de São Paulo em parceria com a Prefeitura de Guarulhos fornecer ao Bairro dos Pimentas um efetivo de profissionais públicos de outras áreas ou ainda outros projetos.

Pensemos em 100 médicos para eliminar as filas de atendimento na saúde pública ou ainda 100 iniciativas de moradia popular sem a ameaça de despejo como está ocorrendo no Sítio São Francisco (uma área onde as famílias estão sendo desocupadas pela CDHU); 100 espaços de convivência com atividades culturais, parques, bibliotecas… Mas não. O que chegou foi a polícia. E parafraseando a Frente Três de Fevereiro[1]: “Quem policia a polícia? Quem policia a polícia?

Voltando aos calouros da UFMG. Jovens coitados que fizeram apenas uma brincadeira ingênua. Pobres meninos-bolhas que cresceram em condomínios fechados, em colégios fechados e com mentes fechadas não sabem lidar com as diferenças! Pobres, pretos, nordestinos, não sabem como lidar… Como imaginariam tamanha repercussão ao externalizar na universidade as piadas contadas na mesa de jantar ou nos clubes bem frequentados pela família? Foi apenas um deslize. Deslize este que será “severamente” punido pela reitoria da universidade e os pais provavelmente farão suas repreensões e apresentarão junto aos advogados da família provas de que os rapazes têm boa índole, que eles têm ATÉ amigos negros e que os tratam normalmente! Tudo servirá como álibi de bom comportamento e atenuantes desta atitude equivocada.  Mas que isso não se repita. Ai, ai, ai meninos feios!

Voltemos ao Bairro dos Pimentas, o número de viaturas e de sirenes aumentou, os espaços públicos cada vez mais restritos, afinal de contas você pode levar um enquadro tomando uma cerveja no bar, indo ao banco ou à padaria. O enquadro da rota/força tática na periferia não é coisa que se deseje nem para um inimigo.

Cada sirene é um frio na barriga. Armas de todos os calibres apontadas para sua cabeça. E eles passam babando, foram treinados para isso. E não estou falando do canil. Nesse estado de exceção em nome da democracia o cara da farda tem a lei e o outro é culpado até que se prove o contrário. Viaturas passam na velocidade da luz em ruas residenciais. E o Datena dentro das residências legitima a ação. Motos da ROCAM demarcam território, a Cavalaria entra nos becos, o silêncio fica nas bocas. E as crianças se privam da rua. E as pessoas se privam da cidade. Desde sempre tivemos a CIDADE-PRIVADA para nós. Essa priva-cidade nos impede de nos reconhecermos como cidadãos!

E o que os calouros da UFMG têm a ver com isso? Muitos acham absurdo, pois esses serão os futuros advogados do país. Que mau exemplo! Um caso característico da perda dos valores morais nessa sociedade moderna…

Infelizmente tenho uma má notícia, eles não serão apenas advogados, bem provável que sejam os delegados, defensores públicos, procuradores e até juízes da nossa nação. E o que era brincadeira num trote inofensivo se torna prática usual para arrancar confissões, encarcerar, matar em nome da lei. O alvo será o mesmo.

[1] A Frente 3 de Fevereiro é um grupo transdiciplinar de pesquisa e ação direta acerca do racismo na sociedade brasileira

Por Gabriela de Jesus, estudante da Unifesp e moradora do bairro dos Pimentas.

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